Retratos da Bahia: 22 telas de baianos dos séculos XIX e XX (com acervo IGHB), passam por restauro



Sociedade visual: 22 retratos de baianos dos séculos XIX e XX passam por restauro - Telas fazem parte do acervo do IGHB e da Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim


Por Clarissa Pacheco/clarissa.pacheco@redebahia.com.br

Fonte: Correio on line (https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/sociedade-visual-22-retratos-de-baianos-dos-seculos-xix-e-xx-passam-por-restauro/)


Numa mesma sala bem iluminada de uma casa no bairro do Garcia, em Salvador, se reúnem há cerca de seis meses um grupo de 22 pessoas: um padre, um juiz, comendadores, um coronel, um major, esposas e filhas de gente importante da política baiana, um imperador, um presidente da República e até Jesus Cristo. Uns têm as roupas rasgadas, outro têm cortes nos rosto e nas mãos. Alguns não sabem o próprio nome, nem como foram parar ali. Mas, de lá, as 22 criaturas, todas bem-vestidas e em pose solene, só vão sair quando estiverem em condições de exibir as próprias figuras.


Todos estão retratados em telas pintadas entre os séculos XIX e XX por importantes nomes das artes da Bahia e do Brasil. Se tudo der certo, a reunião termina no final deste mês, assim que as 22 telas, pertencentes aos acervos do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e da Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, forem restauradas pela equipe do artista plástico e restaurador José Dirson Argôlo. O trabalho foi contemplado em dois editais da lei Aldir Blanc, via Fundação Gregório de Mattos (FGM), orçados, cada um, em aproximadamente R$ 100 mil.


Mas, por que tantos retratos? E por que restaurá-los, em vez de se dedicar a obras de paisagens e a cenas que mostram episódios na nossa história? Quem ajuda a explicar isso é o professor Anderson Marinho, do Departamento de História da Arte e Pintura da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA-Ufba). Segundo ele, a maior parte dos pintores baianos do século XIX produzia obras religiosas para as ordens, como a dos franciscanos, dominicanos, entre outras. Mas, no final daquele século, chegou a Salvador o pintor espanhol Miguel Navarro Y Cañizares, que acabou fundando a Escola de Belas Artes. E ali as coisas começaram a mudar.


Novos símbolos

Existem duas versões para essa história. A primeira é de que Cañizares começou a dar aulas no Liceu de Artes e Ofícios, criado em 1871, e que após uma briga com outro professor decidiu criar a Escola de Belas Artes. A segunda, na qual o professor Anderson Marinho tende a acreditar mais, é a de que Cañizares já tinha um projeto de fundar uma escola na Venezuela. Mas, ao chegar a Salvador, viu que já existia ali um liceu que trabalhava num nível parecido com o dele. Decidiu ficar e, após um conflito, possivelmente por ciúmes, deixou o Liceu para criar a Escola de Belas Artes.


Era 1877 e foi ali que os principais pintores baianos daquela época e até do século XX foram formados.

Aquele período coincide com um momento importante da política brasileira: a Proclamação da República. “O símbolo da Família Real cai e o Brasil precisa de novos símbolos, que vão ser os militares, políticos, professores, os grandes nomes das ordens religiosas”, completa o professor. As pessoas começam, então, a encomendar seus retratos. As instituições mandam fazer imagens de seus líderes e beneméritos.


Não é por acaso, então, que a maior parte do acervo de pinturas do IGHB seja de retratos. Das 22 telas, 15 são retratos da pinacoteca de lá, alguns doados por famílias tradicionais e outros que retratam sócios do Instituto. Há até telas sem identificação dos homenageados. Elas mostram homens bem-vestidos – um deles, inclusive, com medalhas e insígnias militares –, mas não há nos registros documentais o nome do personagem. Por outro lado, ambos foram pintados por um nome importante das artes na Bahia no século XIX: José Antônio da Cunha Couto. E foi por isso que seus retratos foram escolhidos para integrar o edital de restauro.


Cunha Couto estava lá naquelas primeiras turmas da Escola de Belas Artes, depois de ter estudado no Liceu, onde fez sua clientela. Pintava cenas bíblicas, santos e personalidades e foi um dos retratistas que mais produziu em seu tempo. Seus retratos, feitos em ateliês desde a Ladeira da Conceição até a Castro Alves, passando por Itapagipe, eram conhecidos pelo colorido e pelas expressões dos personagens. Curioso é que ele também se tornou um dos fotógrafos mais conhecidos na Bahia no final do século XIX.


A Casa Pia enviou para o ateliê sete telas, a maioria delas de provedores, um deles pintados por Cunha Couto, outros por mais nomes importantes da época, como Vieira de Campos, Presciliano Silva, José Theófilo de Jesus e João Francisco Lopes Rodrigues. É a metade do número de quadros enviados pelo IGHB, mas elas compensam em tamanho. Cada quadro da Casa Pia equivale a quatro ou cinco do IGHB. Entre os retratados de lá está o Irmão Joaquim Francisco do Livramento, natural de Santa Catarina, mas que fundou a Casa Pia de Salvador.


Sociedade visual Além da importância para o momento histórico entre o final do século XIX e o início do XX, os retratos ajudam a pensar como funcionava a sociedade da época. Ser retratado e um quadro era uma forma de ser legado para a posteridade, de ser visto e lembrado por gerações futuras – e nem todo mundo podia pagar por esse luxo. Por isso, ter um retrato já é um indicativo de que aquela pessoa tinha algum poder aquisitivo ou, pelo menos, influência.


“Essas pinturas evidenciam muito mais do que o momento, o universo em que elas estão inseridas. Elas mostram um panorama da sociedade, do ir e vir daquele período, a questão dos status, das hierarquias e de como essas pessoas queriam ser legadas, ficar para a posteridade”, explica o historiador Rafael Dantas, que estuda a iconografia em Salvador dos dois últimos séculos.


É difícil dizer quanto custaria, em valores atualizados, um retrato daqueles pintados nesse período. Mas há uma pista: segundo o professor Anderson Marinho, a pesquisadora Patrícia Telles apontou que, no início do século XIX, um retrato custava o equivalente a um cavalo.


Quem podia pagar por um retrato buscava ser representado da melhor forma possível. Os que tinham um cargo mais importante faziam questão de deixar isso claro nas imagens. O comendador Antônio Vaz de Carvalho, por exemplo, foi administrador da Casa Pia no final do século XIX, além de ter sido provedor e benfeitor do lugar. Mas, ele escolheu ser retratado pelo artista José Rodrigues Nunes vestido como juiz, cargo que ocupou em Cachoeira e no Tribunal da Relação da Bahia nos anos 1820.


O Irmão Joaquim, fundador da Casa Pia, usa uma túnica como a dos Irmãos da Ordem Terceira de São Francisco e aparece na tela pintada por José Theófilo de Jesus ao lado de duas crianças. Outro benfeitor da Casa Pia, José Antônio Roiz Vianna, também foi retratado segurando a mão de uma criança – como os órfãos que a instituição recebia.


As três únicas mulheres retratadas nesta coleção aparecem nas imagens de formas diferentes: Leonor Augusta Pires de Aragão, da família do político José Pires de Carvalho e Albuquerque, aparece de vestido branco e decote aberto, com os braços à mostra. Uma imagem bem diferente de Dona Elpídia Barros, pintada na primeira metade do século XX por Terêncio Vieira de Campos em roupa preta e decote fechado.



Dona Elpídia Rosaura Barros é uma das três mulheres com retratos sendo restaurados; o quadro é do acervo do IGHB e foi pintado por Vieira de Campos no século XIX (Foto: Nara Gentil/CORREIO)


A imagem é bem parecida com o retrato de Dona Hermínia Farias César Zama, pintada por Cunha Couto ainda no século XIX. Ela era casada com o médico e político baiano César Zama, natural de Caetité. Aliás, ele não é o único desta cidade a ter um retrato no acervo do IGHB: o major Rogaciano Pires Teixeira, tio de Anísio Teixeira, também foi retratado por Vieira de Campos em 1930.


Avarias Impecáveis na hora de serem retratados, esses personagens já não tinham seus retratos em tão perfeito estado assim quando foram para a restauração. Pelo contrário, a maioria foi avaliada como em ruim ou péssimo estado de conservação e só dois foram classificados como regulares. Os do IGHB, por exemplo, nem sequer estavam mais expostos, e sim guardados no acervo da instituição. Os da Casa Pia, embora pendurados, também não estavam à vista.




Retrato de João Moreira de Pinho, que se tornou sócio do IGHB em 1918, era um dos mais danificados; o quaro foi pintado por Presciliano Silva em 1929 (Foto: Nara Gentil/CORREIO)


São danos diversificados. O retrato de João Moreira de Pinho, por exemplo, que foi sócio do IGHB desde o início do século XX, mostrava uma rasgão no rosto do personagem pintado por Presciliano Silva. O quadro de Antônio Fernandes Cardeira, possivelmente benfeitor da Casa Pia, ficou com outro colorido após passar pelo processo de restauração. A pintura tinha um tom amarelado, comum em telas que recebiam um verniz após ficarem prontas para tentar equilibrar as cores. Mas, com o tempo, esse verniz oxida e altera as cores originais. Um produto químico aplicado com cuidado sobre a pintura remove essa camada de verniz e devolve as cores originais.


Já o quadro de Dom Pedro II, do acervo da Casa Pia, tinha pelo menos dez furos curiosamente concentrados na região das genitálias do imperador, como se crianças tivessem brincado de tiro ao alvo com o quadro. Quase tudo já foi reparado e a tela, cujo autor não foi identificado, já está quase pronta para retornar a um lugar de destaque nas paredes da Casa Pia. Ele é o menos dos quadros da instituição.

O maior, de 2,6 metros de altura por 1,85 metro de largura, ainda não começou a ser reparado, justamente por conta o tamanho. A equipe vai ter que fabricar uma mesa especialmente para a pintura que retrata Jesus Cristo cercado de crianças, feita em 1890 por João Francisco Lopes Rodrigues, conhecido por ter pintado, junto com o filho, Manuel Lopes Rodrigues, painéis da Igreja da Conceição da Praia, em Salvador.


Destino Tanto a Casa Pia quanto o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia já têm um destino para os quadros, quando a restauração terminar. Os da Casa Pia até estavam pendurados, mas não à vista das pessoas. Agora que a instituição se prepara para voltar a receber eventos, assim que for possível, por conta da pandemia, os quadros ganharão lugar de destaque, principalmente a do Irmão Joaquim. “A tela do Irmão Joaquim é a mais antiga de todas, ele é o fundador e é onde tudo começou. E assim, através de um olhar histórico, fomos estabelecendo as prioridades”, diz o diretor-geral, João Gomes.

E já há outros quadros na ‘fila’ da restauração, os que ficaram de fora desta primeira seleção, além de mobília e do próprio prédio, que é tombado.


As do IGHB, que estavam guardadas, voltarão a ser exibidas. “São telas de um de um grande valor histórico e para a história da Bahia. As pessoas retratadas eram de importância política para a Bahia, principalmente nos séculos XIX e início do século XX”, explica o presidente do IGHB, Eduardo Morais de Castro. Segundo ele, o Instituto pretende, assim que possível, lançar uma exposição com os novos quadros recuperados. “Nossa pinacoteca tem mais de 100 telas, a maioria exposta no próprio Instituto. Nós recuperamos 20, com recursos próprios, e agora estamos recuperando mais 15 com recursos da Lei Aldir Blanc”, completa.


Sabe como é feita uma restauração? Veja alguns passos:


1. Remoção de camadas

Uma das primeiras etapas da restauração é a limpeza da obra. Antigamente, era comum que os artistas, cerca de um mês após concluir uma obra, aplicassem uma camada de verniz para dar uma uniformidade ns cores. Essa técnica era chamada de vernissage e é por isso que, até hoje, o dia do lançamento de exposições recebe esse nome. Antes, a exibição dos quadros acontecia no mesmo dia em que se aplicava o verniz. O problema é que ele tinha compostos que, ao entrarem em contato com o oxigênio, oxidavam, dando um tom amarelado à pintura com o tempo. Na restauração, um produto químico é aplicado para remover essa camada de verniz.


2. Tecido

Em seguida, os restauradores fazem um tratamento do tecido em que o quadro foi pintado. É feito um reentelamento em tecido de linho colado atrás do original, para dar mais sustentação ao suporte. Também é feito um tratamento nas partes perdidas, chamadas de lacunas. Pedaços de linho são cuidadosamente colador na tela para preencher espaços perdidos.


3. Obturação e nivelamento

Aquelas lacunas encontradas na tela e fechadas com linho precisam ser niveladas ao ponto de que a emenda seja quase imperceptível. É usada uma massa artesanal com gesso-cré e cola de coelho. Eles secam mais lentamente e permitem um nivelamento melhor, sem craquelar.


4. Reintegração

Depois desse processo, é feita a reintegração da camada pictórica. Naqueles locais em que a tela ficou com lacunas, o restaurador refaz a pintura, mas só nos locais onde é possível saber o que tinha antes – com o uso de fotografias do acervo, por exemplo. Existem perdas irreversíveis e o processo de restauração precisa respeitar isso.


5. Finalização

Por fim, é feita uma limpeza na tela, aplicado um verniz e o quadro segue para ser emoldurado. Os produtos usados na restauração precisam ser removíveis – e a restauração não pode criar um novo quadro, nem deixá-lo com aparência de novo. Marcas do tempo são parte da história daquele quadro. Os produtos utilizados na restauração do acervo de 22 telas são, em sua maioria, importados da Itália, mais especificamente da cidade de Florença, onde José Dirson Argôlo formou-se restaurador.



Um produto químico é aplicado sobre a tela para remover as manchas e o amarelado provocado pelo verniz sobre a pintura; na foto, José Dirson faz o procedimento no retrato de Antônio Fernandes Cardeira, da Casa Pia, pintado por Vieira de Campos em 1914 (Foto: Nara Gentil/CORREIO)






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