A polêmica da data de fundação de Salvador





29 de Março é hoje reconhecida inquestionavelmente como a data da fundação da cidade de Salvador. Nesse dia, em 1549 (uma quinta-feira), Tomé de Souza desembarcava na enseada do Porto da Barra. Na praia a esperá-lo estava Caramuru, náufrago português que aqui já estava há 40 anos. Já quase um ancião e plenamente integrado entre os tupinambás - tanto que casara com várias índias da tribo, sendo Catarina Paraguaçu a “esposa” porque casados na Igreja Católica - não foi difícil para ele arregimentar índios para recepcionar o enviado especial do Rei de Portugal. Tomé de Souza vinha com a missão, definida em Carta Régia, de fundar na Baía de Todos os Santos uma “cidade fortaleza” para ser a capital das terras portuguesas na América.


Mas nem sempre foi pacífica essa questão da data “oficial” de fundação de Salvador. Uma enorme controvérsia se estabeleceu e agitou os meios cultural, acadêmico e jornalístico da Bahia nos anos 40, com ataques virulentos e até agressões verbais entre os oponentes. A polêmica começou nas páginas do jornal A TARDE, que publicou nas edições de 25 e 26 de agosto de 1948 extenso artigo do médico e escritor Edgard de Cerqueira Falcão, baiano mas residente em Santos (SP), defendendo a data de 1° de Maio como a fundação de Salvador. Até então não existia nenhuma discussão a respeito, embora oficialmente também não houvesse nenhuma data determinada. Tacitamente todos sempre comemoravam o dia 29 de março.


O argumento de Edgard Falcão era de que existem na Biblioteca Nacional transcrições de documentos assinados pelo próprio Tomé de Souza pagando nessa data os primeiros salários às pessoas que vieram com ele para exercer funções administrativas e militares no primeiro governo que se iniciava no Brasil. O artigo teve uma irada reação da parte do professor Frederico Edelweiss, o maior estudioso, desde Anchieta, da língua Tupi e um grande intelectual baiano da época. Ele publicou no mesmo jornal uma resposta, considerada por Edgard Falcão ”violenta e grosseira”.


Tentando apaziguar os ânimos, o renomado historiador Braz do Amaral, que estava organizando o I Congresso de História da Bahia, convidou Falcão para participar do evento e expor a sua tese. Organizado pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e previsto para março de 1949 o congresso seria o principal evento comemorativo do IV Centenário de Salvador, completados naquele ano.


Nos meses seguintes os jornais de Salvador mantiveram acesa a polêmica em artigos assinados - por historiadores, professores, jornalistas e simples leitores - geralmente atacando os defensores da data de 1° de maio. Alguns artigos e cartas até propunham até novas datas. Houve quem propusesse o dia 12 de Junho, quando foi realizada a procissão pelo dia de Corpus Christie, com Tomé de Souza e o Padre Manuel de Nóbrega à frente do cortejo. Foi a primeira procissão realizada no Brasil e também a primeira solenidade oficial do primeiro governo geral do Brasil. Também foi sugerido o dia 1° de abril por hipoteticamente ter sido o dia em que teria sido fincada a primeira estaca para a construção da muralha em torno da cidade que nascia. Alguém sugeriu a data de 6 de agosto apenas por constar, não se sabe bem porquê, como a fundação de Salvador, na placa do Monumento ao 2 de Julho, no Campo Grande, que tinha sido inaugurado em 1895. Outras datas surgiram como 1° de Novembro porque nesse dia, em 1502, a Baía de Todos os Santos foi “descoberta” por Américo Vespúcio. A celeuma crescia e despertava apaixonadas discussões.


Braz do Amaral dedicou-se com intensidade a organizar o congresso, planejando cada uma das suas etapas, convidando gente da Bahia e de outros estados, definindo o temário e a direção de cada mesa, enfim toda a programação, inclusive as atividades paralelas e os eventos sociais. Mas morreu faltando poucos dias para o seu início. A presidência do Congresso passou então para Wanderley de Pinho, que já era o Presidente de Honra do conclave, na condição de Prefeito de Salvador e também de notório historiador, com vários livros publicados. O evento mobilizou os maiores historiadores baianos como Pedro Calmon, Theodoro Sampaio, Sílio Boccanera Jr e Bernardino de Souza.


Em 19 de março de 1949 o Congresso foi aberto na sede da “Casa da Bahia”, como era conhecido o IGHB, e a polêmica da data de fundação da cidade desde cedo centralizou os debates, ofuscando os demais temas em pauta. Historiadores e pesquisadores de vários estados, representando instituições diversas, vieram a Salvador e também deram seus palpites. A polêmica havia adquirido uma dimensão nacional, com artigos em jornais e revistas do Rio de Janeiro, capital do país.


A sessão dedicada ao tema foi a mais concorrida e após horas de exaustivos debates que entraram pela madrugada, Edgard Falcão - que recebera poucas adesões à sua tese - estava na tribuna quando, em meio a ânimos exaltados, foi interrompido diversas vezes e chegou a ser vaiado. Foi a mais tumultuada reunião ocorrida em toda a história do Instituto. Uma parte da assistência queria garantir a ele o direito à palavra e a outra, mais barulhenta, queria encerrar o debate. No meio do tumulto ele mal pôde concluir seu discurso. Posteriormente em carta à Academia de Letras da Bahia ele desabafou: ”Uma coisa até hoje, porém, nunca pude perdoar: a privação do meu direito de expor livremente minhas ideias, ocorrida na inesquecível madrugada de 25 de março quando fui praticamente expulso da tribuna e não me foi permitido finalizar os conceitos que desenvolvia.”


Após os festejos do IV Centenário o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia em consulta informal entre os seus associados aprovou por maioria esmagadora moção no sentido de oficializar o 29 de março como data de fundação de Salvador. Pesou bastante entre os associados a palavra abalizada de Wanderley de Pinho. Outro congresso de história, realizado no Rio de Janeiro, voltou a discutir o tema sem chegar a uma conclusão definitiva. Três anos depois, em 11 de março de 1952, o prefeito de Salvador, Osvaldo Gordilho, através da portaria 299 tornou oficial a data de 29 de março. A polêmica estava encerrada mas deixou cicatrizes e muitos intelectuais baianos romperam amizades outrora cordiais.



Jorge Ramos é jornalista e pesquisador do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.




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