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A poesia de um rio enfermo, por Denise Emmer

  • Foto do escritor: IGHB Bahia
    IGHB Bahia
  • 17 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Lavadeiras – Foto 1945, acervo Clóvis Gois


A poesia de um rio enfermo

 Denise Emmer

 

O rio do menino poeta, de águas claras e translúcidas, onde de peito nu ele nadava impetuoso, a se imaginar um herói, peixe do vento, ou mesmo uma ave aquática, hoje padece da enfermidade que assola a natureza. A poluição, por abandono e descaso com a vida.

De sua juventude solar ele nos conta, logo na última parte deste Trilogia do Rio, que é para ler e pensar:

 

Houve a expressão livre

do sol lavando meu rosto,

a vida se desvendava

com a magia das cores.

 

      Esse rio de inúmeras pedras pretas, espalhadas nos peraus e no raso, divide a cidade de Itabuna em duas partes, no interior da Bahia. Foi o rio das lavadeiras, que de lavar as roupas de gente abastada ganhavam o sustento e coloriam as pedras quando nelas colocavam as roupas para secar ao sol de manhãs claras.  Era um rio de águas límpidas e peixes em abundância. O poeta nos diz em comoventes versos sobre o rio do seu passado quando as correntes brilhavam na diáfana pureza.

 

Havia as lavadeiras nas pedras,

havia borboletas no barranco,

havia o sol na canoa,

havia as fotos da lua.

 

       Ele nos conta uma triste história, em versos de onda em onda, que nos fazem sentir outras águas, verter lágrimas e lamento, ao saber que esse rio hoje é um doente sem cura, ao invés de reger barcos ou levar em seus braços os nadadores meninos transporta dejetos e vômitos, qual um depositário de restos.

Mas Cyro revela em poesia, como só os poetas sabem, essa trágica realidade que nos comove e alerta. Transcrevo então outro trecho do livro, de rara beleza poética.

 

Sem mergulhos agora,

competente abundância,

espumas se escondem

pastosas nos vômitos

para que serves enfermo

sem brilho nas escamas,

sem teus cachos de água

que sempre inventavas?

 

         Diante do cenário triste, que se revela o mais nefasto como acontece na finitude das coisas puras, o poeta prossegue seu navegar por entre as chagas e os restos.

 

Vômitos e excrementos

no funeral das águas

eliminaram a paisagem clara.

 

Tal qual o rio Amazonas, onde flutuam doses químicas jogadas por mãos humanas, o Cachoeira da infância do poeta, de águas puríssimas, lugar de mergulhos solares dos meninos de Itabuna, agora integra outra paisagem, de negações e tristezas. Como consequência dos abusos terrenos faz parte do funeral do mundo e de toda a natureza.

Antes deslizava com suas águas claras, hoje se mostra agônico, que dá pena a quem vê.  Como ocorre com o rio de Heráclito, a pessoa não vai poder se banhar nele duas vezes. Há tempos, como se fosse um esgoto a céu aberto, sofre com a transformação que o tempo lhe impingiu. Entre as ocorrências do universo, que em seu devir está sempre em transformação, esse rio generoso “se desvendava / com a magia das cores / (...) em que “viver era aventura/ desenhada pelas mãos da infância”. Há tempos desce desfigurado quando então “espumas se escondem / pastosas nos vômitos”.

Apesar da crueza descrita nesse poema denúncia, o poeta Cyro de Mattos – nome essencial da moderna literatura brasileira – nos traz nesse livro a poesia pura e genuína de quem sabe que o “fazer poético” é vocação e trabalho.

A poética líquida de Cyro de Mattos, é, portanto, fundamental por sua temática universal, bem como pela rica e plena poesia de invenções imagéticas e ritmo encantatório, como o do rio de outrora que hoje padece no terminal.

São poemas para reler e pensar sobre o que fizemos com o planeta.

 

*Denise Emmer, poeta premiada e ficcionista 

 renomada, musicista da Orquestra Sinfônica

 do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.


 
 
 

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