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Recordações do Colégio das Mercês

03/12/2014

Tendo estudado nas Mercês apenas durante três anos, fiquei muito vinculada à instituição, dela guardando muitas lembranças e nela tendo feito sólidas amizades.

 

Ali vivi dias prazerosos, de muita alegria e aprendizado. Conheci e convivi com Madre Santo Inácio, mestra rigorosa, direi mesmo severa, mas dotada de grandes recursos intelectuais e didáticos.

 

Tive o privilégio também de ser aluna de geografia de Madre Maria Pia, alva e bela que, povoava de mistérios a cabeça de todas as alunas. Como era jovem e bonita, inventou-se que ingressara no convento em virtude de desilusão amorosa. Não me esqueço de Mére Emilie, professora de francês, sobre quem se dizia pertencer à nobreza belga. Sussurrando, as meninas cochichavam que ela era uma “princesa”. Lembro-me muito de Madre São Luiz Gonzaga, doce, serena, maternal que, pouco tempo depois, foi substituída por uma espanhola, Madre Xavier. Disciplinadora e forte, não era nada apreciada pelas estudantes, que a temiam, pois era muito enérgica e intolerante.

 

Madre Beatriz, que viveu muitos anos no Colégio, sempre foi muito estimada, mas não foi minha professora. Madre Maria Luiza, da secretaria, tinha atenções especiais para comigo, pois fora colega de minha mãe no Educandário dos Perdões. Irmã Francisca, que cuidava da capela, era um encanto de pessoa humilde, delicada e risonha.

 

Dos professores leigos tenho muitas lembranças, tantos foram os que conheci nas Mercês: Virgílio Oliveira, competente, discreto, personalíssimo; Percy Cardoso, excelente didata, fechadão, de pouca conversa, Afonso Pitangueira, objetivo, capaz e astuto, Armando Costa quase sempre alegre, bom expositor e comunicativo, Cassilandro Barbuda, delicado, simpático e competente, Padre Lemos, de riso bondoso mas, exigente e copioso, João Mata Barros, comum no trato com as alunas, mas igualmente conceituado.

 

Nas Mercês comecei a escrever no jornalzinho Serviam, que circulava com sucesso entre as estudantes. Falo no feminino porque naquele tempo somente meninas ali estudavam, a fim de que não tivesse contato com meninos. Existiam muitos desses colégios segregadores, tanto para meninos quanto para meninas. Meu pai, por exemplo, tinha muitos cuidados com as filhas, protegendo-as do convívio com os meninos.

Fui destinada ao Colégio das Mercês por ser muito “pintona”, como se dizia naquele tempo.

 

Quanto à Lúcia, minha irmã, bem mais sossegada do que eu, pôde estudar no Colégio Central e conviver com os moços de sua classe. Não me importei com a atitude de meu pai, pois num colégio só de mulheres eu tinha mais liberdade para fazer minhas peraltices. Meu lado lúdico, se é que assim posso denominar minhas maluquices, expandiu-se nas Mercês como nunca. Minha cabeça astuciosa era uma usina inesgotável de idéias e minhas colegas traquinas como eu entravam direitinho na “dança”.

 

Da nossa turma uma apenas tinha carro, Nadja Andrade, veículo disputado pelas mais levadas, que adoravam ir nele, completamente abarrotado, dar voltas na rua Chile.

 

Outro fato que não me esqueço eram as festas do colégio, especialmente quando a elas comparecia o Arcebispo Dom Álvaro Augusto da Silva, cuja “presença” na Casa alvoroçava as freiras, mobilizando-as para que tudo ficasse nos “conformes”. Não era simpático, apesar da fama de que desfrutava no meio religioso. Particularmente, não ia com a cara dele, pois sabia do incidente com Irmã Maria, dos Perdões. Como feminista em potencial, abominava a conduta daquele pastor, considerado duro e inflexível, felizmente sucedido pelo carismático e amorável D. Avelar Brandão Vilela este, a meu ver, o mais amado e compreensivo dos nossos pastores. Fora talhado para pastorear na Bahia, terra complicada, onde convivem várias crenças. Soube se conduzir e dos seus lábios serenos jamais se escutou uma reprimenda mais forte e incisiva. Seu enterro foi consagrador, como tudo que fez na vida. 

 

 

Fonte: Tribuna da Bahia

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