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A Cidade da Bahia de outros tempos

08/10/2014

Consuelo Pondé de Sena

Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia

 

 

É fato inconteste que a descoberta das riquezas auríferas em Minas Gerais e Goiás concederam importância relevante ao Rio de Janeiro, em face da sua proximidade maior com esses pontos de produção mineral. Em vista dessa circunstância, aliada à questão das fronteiras do país, perdeu a Bahia a posição política que vinha desfrutando desde 1549.

 

Apesar dessa deteriorisação significativa, a Bahia continuou sendo, àquela altura, e durante muitos anos seguintes, um Estado forte e respeitado, em função do papel histórico exercido desde 1549, sem falar na importância  da sua movimentada praça comercial. Também desfrutava da notoriedade de vultos eminentes, do prestigio de muitos dos seus professores, da qualidade do ensino, dos políticos que o representavam, das instituições educacionais, dos representantes da Cultura e da inteligência nacionais.

Diria, sem medo de estar cometendo erro de avaliação, que possuía uma grande riqueza em termos morais e intelectuais, representada por ilustres filhos, que nele nasceram e dignificaram a inteligência e a dignidade brasileiras.

 

Apesar da grande perda representada pela mudança do centro de decisões políticas e administrativas, temos uma bela história a contar. Recuamos até quando este local fez parte da Capitania da Bahia, de propriedade do donatário Pereira Coutinho. Este, em 1536, doou uma sesmaria a Diogo Álvares incluindo nessa doação a Igreja da Graça e terrenos adjacentes, tendo sido transferidos, em 1586, por Catarina Álvares Caramuru, para os monges beneditinos, conforme publicara Melo Morais Filho, no Brasil Histórico. Esta última escritura, no entanto, foi reproduzida de maneira descuidada, contendo alterações e modernizações de grafia, algumas lacunas ou omissões, inclusive o acréscimo do apelido Paraguaçu ao nome de Catarina Álvares.

 

Com o desenvolvimento da “colonização” foram-se firmando três núcleos de população – Barra, Vitória e Graça. Esses sítios compunham a Vila Velha ou Vila do Pereira, daquelas partes saindo o caminho que demandava à cidade, denominado “caminho da Vila Velha”, muito mais tarde Avenida Sete de Setembro, estreita e dificultosa, alargada pelo Governador J.J. Seabra.  Próximo às Portas de Santa Luzia, que se situava no local em que por muitos anos funcionou o jornal A Tarde, erguia-se, no alto de um elevado, a ermida de São Sebastião, que foi doada aos beneditinos por Francisco Afonso, o Condestável, e sua mulher, templo modesto que foi substituído pelos muros do mosteiro, sendo erguida a “igreja nova”, iniciada no tempo em que Gabriel Soares fazia seu testamento e ainda se encontrava em obras em 1612, quando os monges  necessitavam ter na Praia tijupares para tirar a cal de que necessitavam para levantar o novo convento.

 

Em torno da ermida da Graça foram se espalhando muitas casas de ermitões e de romeiros, residências e currais da família Caramuru, e por detrás da igrejinha, existiam ruínas da antiga fortaleza que, anteriormente, defendera “o assento e a casa”, em que vivera Diogo Álvares, local “afastado da povoação” do Pereira e que Caramuru “fortificou”.  E onde se recolheu, feitas as pazes com os indígenas, contra cujos ataques ele tomara providências.

 

Quando a gente percorre certos trechos da cidade não se dá conta de que entre os sítios da Vitória e a Graça haviam uns “brejos”, sendo um deles defronte da capela da Graça e o outro que corre por trás desse templo para a banda do nascente (Chame-Chame). Por essa região corria o Rio das Pedras, que foi canalizado para dar condições de ser estabelecido o Jardim Brasil, nascido, portando, de uma área alagadiça.

 

Nas inúmeras cartas seiscentistas da Cidade do Salvador aparecem muitos guindastes, graças a cuja ajuda eram conduzidos volumes descarregados dos navios  e barcos, dos quais restam referencias de viajantes estrangeiros, dentre os quais  Pyrard de Laval (1610), Dampier (1699) e Frezier (1714). “Na conhecida Rua dos Guindastes dos Padres, estava o ascensor dos Padres da Companhia de Jesus, no local onde hoje está o Plano Inclinado Gonçalves”.

 

As ruas intra-muros situavam-se: “junto de Nossa Senhora da Ajuda“, praça desta Cidade, Rua Direita, adro da Sé, rua da Sé, Terreiro de Jesus, Rua do Bispo, Rua de São Francisco, com todas as travessas que as interligavam. As ruas extra-muros estavam fora desse perímetro urbano e compreendiam, entre outras, a região de São Bento, com suas naturais expansões.

 

Quanto à Cidade Baixa era quase uma nesga de terra apertada entre o mar e a montanha, agarrada ao grande penedo, formando uma única rua, denominada da Praia, com seus desembarcadouros e as três fontes mencionadas por Gabriel Soares.

Como deveria ser belo este paraíso terrestre! Como foi-se transfigurando ao longo dos séculos, a ponto de transformar-se num imenso “favelão”, atropelado por um trânsito infernal, perturbado pelos estridentes sons da sua incomensurável poluição sonora e atravancado pelos milhares de comerciantes  informais, com um agravante dos últimos tempos – os pontos de mototaxis,  espalhados  em lugares de estacionamento proibido. Permitam-me que, soteropolitana apaixonada por minha cidade, sonhe com o passado longínquo e possa reviver um tempo inesquecível.

 

 

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