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As Representações da Amizade e do Amor

01/10/2014

Consuelo Pondé de Sena

Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia

 

 

Amizade existe, é real e construída. Este sentimento, como é natural, tem–se modificado com as transformações da sociedade, assumido novas formas e modos de expressão.  Quando nascida da afinidade, sedimentada pelo respeito e pela mútua compreensão, a amizade fortalece-se com o tempo. Esse mesmo tempo é infiel e demolidor, quando apaga as lembranças, destrói as parcerias e as cumplicidades.

 

No século XIX, e mais a metade do XX, amizades entre pessoas do mesmo sexo eram aceitas, confirmadas, às vezes, “vigiadas. Expansões de afeto, quase sempre ocorrentes entre companheiras de escola, eram consideradas manifestações espontâneas, puras e naturais.

 

Quem não tem, entre fotos antigas de família, retratos em sépia, ou preto e branco? Belas e sugestivas imagens de mães, tias e outros parentes, tiradas em grupo de dois ou três colegas de classe? Cabeças juntinhas, caso fossem mulheres, separadas, quando homens. Tudo como mandava o figurino, sem que pessoa alguma ousasse, sobre eles, firmar juízos temerários.

 

Lembro-me, por exemplo, de uma bonita foto de minha mãe e sua colega Lulu Leite. Jovens e formosas. Cabelos cortados à Chanel, e um insinuante “pega rapaz“ para se situarem no rigor da moda. As duas moças, de outrora, exibiam um sorriso maroto e desconfiado, próprio das jovens dos anos 1920. Outra fotografia, igualzinha, revela a imagem de minha mãe ao lado de Mercedes Coelho, também sua colega nos Perdões.

Quanto às fotografias dos moços, acadêmicos, também se apresentavam em grupo de dois ou três amigos, sem que se lhes fossem lançadas suspeitas sobre a masculinidade. Até hoje, possuímos um exemplar precioso. Uma fotografia de meu pai, estudante de medicina, ao lado de Álvaro Moreno e Kilkerry (sobrinho do poeta).

 

No verso daqueles postais, para serem endereçados aos parentes e amigos, eram escritas dedicatórias sugestivas, que testemunhavam os laços de amizade existentes entre os remetentes e os destinatários.

 

Quanto à correspondência epistolar entre amigos começa a ser mais constante a partir dos séculos XVIII e XIX e dispõe de uma escrita própria.

Por sua vez, o diário íntimo, praticamente em desuso, surgiu no final do século XVIII, vigorou durante o XIX e decaiu na metade do século XX.

No meu tempo de curso secundário, muitas colegas possuíam diários e cadernos de recordação. Apesar de extrovertida, não cultivei essa prática confessional. Tinha pudor de recolher depoimentos e, mas ainda, de expor-me à curiosidade.

 

Todavia, a produção editorial de obras dedicadas à amizade muito grande no século XVIII, torna-se rara no século XIX. Neste só se estimula o florilégio, a coletânea de citações, o poema de circunstância, que dão prova de um gosto pela recensão das sabedorias do passado. Estes últimos têm como foco as preocupações educativas, especialmente na pastoral católica.

 

Desde que se passou a freqüentar colégios ocorreu a proliferação das relações de amizade. Hoje, com as múltiplas atividades educativas, a amizade se estabelece em várias direções e diferentes parâmetros. São múltiplas, ocasionais e mesmo sazonais.

Todavia, na concepção em vigor na idade clássica, o exercício da amizade verdadeira só se firma realmente na maturidade. Na juventude tais relações são, com freqüência, circunstanciais e fugazes. Esta, contudo, não é opinião.

 

A circulação mais intensa da correspondência vai ocorrer no século XVIII, entre pessoas abonadas, com direito ao ócio e domínio da caligrafia.

 

Por isso, a correspondência é uma importante fonte documental. Por meio dela circulam notícias variadas a propósito de modas, costumes, procedimentos, enfim, hábitos sociais que, sem esses veículos de informação, seriam desconhecidos.

 

Philippe Áries observou que no século XVIII a amizade tende a se tornar um sentimento civil em que domina o doce comércio.

 

As cartas do passado não eram moderadas nas expressões de sentimento. Ao contrário, eram passionais e exaltadas, deixando transparecer as emoções e os sentimentos fortes.

As cartas entre os noivos, lidas hoje, parecem muito “avançadas” nas manifestações exacerbadas de amor. Sugerem, inclusive, intimidades inexistentes, como se o casal se relacionasse estreitamente. Era o amor romântico no mais depurado esplendor do sentimentalismo e da fantasia.

 

Vejamos um exemplo clássico da escrita dos anos 1930. “Tarde triste, que nos faz saudades! Há pouco te escrevi. Juntei algumas linhas, a carta que te fiz no dia 8 - e escrevi e disse, que te beijava muito...que te abraçava...Que importa! Porque não posso dizer o que sinto. E no entanto tenho medo. Queima-a Ariosto; foi só a ti que escrevi assim. Dize Ariosto, é feio o que te disse . Dize que não,  para eu ficar contente, outra vez”

 

Que de mal teria feito a lânguida senhorita baiana? Ou desejava concretizar, mas as convenções sociais não permitiam?

 

“Carta é monólogo querendo ser diálogo”, disse, com acerto, Mário da Silva Brito, (1910).

Retratam a ânsia da moça baiana, aprisionada entre as pressões familiares, os rigores morais da época e o medo de ser mal interpretada pelo homem amado.

Senão vejamos outra pérola cheia de romantismo, neste trecho do depoimento de uma mulher apaixonada, datado de 1932.“Ainda te recordas do dia de hoje? Faz um ano que falei contigo; faz um ano que me falaste como nunca, até então. Um ano que me disseste  e repetiste, que me querias  muito...que me amavas – Mentiste naquele tempo, Joaquim, ou é hoje que mentes. Não te compreendo, e tenho medo de te compreender.”......

 

 

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